Me chamo Gisele Batista, mas pode me chamar de Gi.
Nasci e me criei no Beiru, localizado no miolo do Cabula (Antigo Quilombo do
Cabula). Candomblescista, designer de Interiores, artesã, aprendiz de percussão
e empreendedora da Ofá Acessórios, onde confecciono acessórios para adeptos e
simpatizantes das religiões de matrizes africanas.
A minha relação com a Arte vem desde pequena, através da minha mãe Dona Rosa,
que dominava várias técnicas de artesanato. Com o tempo fui me envolvendo com a
parte artística, que vai desde pintar e comercializar camisas pelas redes
sociais, com técnicas de stencil e mão livre, com as marcas Cousins e
Negranna's, confecção de diversos acessórios, até participar de produções arte
visual de eventos, com o coletivo Domingo Alternativo do Beiru, desenvolvendo a
cenografia com materiais recicláveis.
Fiz faculdade e me formei tecnóloga de design de interiores, mas foi no
artesanato que me reencontrei. A arte contribui nas mudanças dos seres humanos
através dos sentimentos, das mais variadas percepções, e no meu caso é o transformar
a matéria prima em uma peça de arte, empoderando e valorizando o sagrado de
quem utiliza o acessório. Ao ingressar na religião do candomblé voltei a ter
contato com as miçangas utilizadas na confecção dos fios de Conta, e vários
adornos. Senti o chamado para a volta ao trabalho com o que me deixa feliz. De
forma intuitiva, autodidata, passei a confeccionar elekés, pulseiras,
lembranças… E tudo que esteja relacionado a orixá e através da minha Yalorixá
Nilza D'Oxum, a quem sou grata pela oportunidade e incentivo, com o projeto Axó
Odara, confecciono acessórios e participo de eventos de economia solidária,
como Flipelô, Flicar, desfiles Axó Odara em Amargosa, Cruz das Almas, Salvador
e Santo Antônio de Jesus.
Me sinto realizada cada vez que alguém escolhe minha arte pra fazer parte do
seu Sagrado. Não tem dinheiro que pague ser valorizada e reconhecida pelas
minhas raízes. Melhor ainda é poder capacitar através de oficinas, pessoas para
que aprendam o ofício e se sintam inclusas no mercado de trabalho, tendo sua
própria renda, e mostrar que por mais difícil que seja, com dedicação, criatividade
e força de vontade, é possível viver da sua Arte.
Sou percussionista em um coletivo de mulheres, Afoxé Filhas de Gandhy e
sambadeira no grupo A Corda Samba de Roda.
Vejo meu território, o Beiru, como um Quilombo urbano, onde através da
oralidade se conservam tradições africanas, as feiras de rua é um dos exemplos,
como o cuidado com a preservação e resistência de terreiros de candomblé, de
nação Bantu, como Terreiro Isumbu Meian (Vila São Roque). Há um grande
potencial artístico com movimentos de todos os estilos, escritores, atores,
cantores, poetas, musicistas, humoristas, entre tantos outros. Muitos
infelizmente por falta de oportunidades não são reconhecidos, e ficam limitados
ao próprio bairro. Ainda assim, o bairro está sempre em movimento, na resistência
através dos coletivos que buscam capacitar os mais novos, alimentando a
valorização da cultura popular local.
Tenho orgulho de ser Beiruense!
Texto: Gisele Batista
IN: @gsbatista
Produção: Davi Bahia
Comentários
Postar um comentário